Mãe de PM morto chora em protesto na Lagoa: ‘Ganhei um batalhão de filhos’

“Não são placas. São seres humanos, são meninos”. Com lágrimas escorrendo pelo rosto, Marilda Bastos da Silva Pereira, de 62 anos, beijava uma das telas negras instaladas na Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio, na manhã desta terça-feira. As placas, colocadas ali em forma de protesto, pela ONG Rio de Paz, trazem à tona uma estatística violenta: nelas, estão dispostos os nomes dos policiais militares mortos no estado do Rio apenas neste ano. Ao todo, neste período, 91 PMs já perderam a vida. A tela que Marilda beijava tinha os dados de seu filho: João Vitor da Silva Pereira, 31 anos, morto em 18 de maio de 2017, durante um patrulhamento próximo à favela do Lixão, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

— Quem matou o meu filho? Descobriram quem matou o Amarildo. Mas até hoje eu não sei quem matou meu filho. E não é só o meu filho. São vários. Até quando vamos sepultar esses jovens? Um filho meu entrou para a Polícia Militar e eu ganhei um batalhão de filhos — desabou Marilda, que também criticou as condições de trabalho dos policiais: — Meu filho levantou várias viaturas que tinham enguiçado fazendo vaquinha com os colegas. A arma dele falhava durante os conflitos. O colete estava tão ruim que o pai dele teve que comprar um colete para ele usar.

Moradora da Zona norte, Marilda soube do protesto pelas redes sociais e decidiu ir até a Lagoa. Ao chegar, desabou diante da placa com os dados do filho. Deu muitos beijos na tela e lamentou não ter trazido rosas para deixar sob o nome do PM.

Marilda diante da placa com os dados do filho morto
Marilda diante da placa com os dados do filho morto Foto: Antonio Scorza

De acordo com Antonio Carlos Costa, fundador da ONG Rio de Paz, o objetivo é deixar o material exposto naquele ponto até que os índices de violência diminuam, a exemplo do que acontece com os cartazes de crianças mortas por balasperdidas e a bicicleta negra, que permanece exposta no local, em alusão ao assassinato do médico Jaime Gold.

— Pretendemos remover as placas e a bicicleta quando a estatística de homicídio doloso cair para dez homicídios por cem mil habitantes por ano. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declara que um patamar acima disso caracteriza uma epidemia. Significa, portanto, que nós nos encontramos nesse quadro. Hoje, o estado do Rio registra cerca de 30 homicídios por cem mil habitantes por ano — diz Antonio Carlos.

Nas placas constam informações como os nomes dos policiais militares, a data em que foram assassinados, além do local e a forma como os crimes aconteceram, exceto do caso do terceiro sargento Husdon da Silva de Araújo, morto no último domingo no Vidigal — a peça ainda não foi confeccionada.

Há também outras que detalham dados como o número de policiais mortos em serviço, o que estavam a trabalho, e os que foram feridos — sobre este último, um total de 294 PMs. As peças terminaram de ser instaladas no fim da madrugada desta terça-feira. Flávia Louzada, cabo da polícia militar, lotada no batalhão de Olaria (16º BPM), ajudou a fincar as placas no local.

— Nunca vimos tanta morte de policial acontecer, o que aponta para uma violação de direitos humanos. O objetivo aqui é também mostrar que direitos humanos não tem lado. a defesa de direitos humanos não pode ser seletiva. Os policiais ganham mal, são mal treinados, trabalham em condições subumanas e espera-se deles o impossivel — critica Antonio Carlos.

 

Fonte: Extra

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